quinta-feira, 21 de julho de 2016

Diário de uma Tromboembolia Pulmonar


Relato dos momentos mais difíceis que passei. O texto é grande, mas conto tudo o que me aconteceu desde que descobri a TVP, Trombose  Venosa Profunda, até a Embolia Pulmonar, EP.
Depois de passar pela morte resolvi contar em detalhes tudo o que aconteceu.

26 de fevereiro de 2012
Acordei com uma dor horrível na panturrilha esquerda. Na verdade, a dor é imensa, não consigo sequer abaixar a perna. Tive de cancelar a aula de hoje, a dor só aumentou durante o dia. Espero estar melhor amanhã.
27 de fevereiro de 2012
Não entendo qual é o problema. 
Pra piorar minha situação, além da dor escruciante, percebi que havia uma veia ressaltada em minha panturrilha e ela vai de um lado a outro. 
Fiquei mesmo preocupada, por isso fui à emergência. A médica que me atendeu disse que é trombose. =(
Tenho que ficar com a perna elevada o tempo todo, tomar diclofenaco sódico, Daflon 500 e fazer massagem três vezes ao dia no local da dor com uma pomada, uma tal de Hirudroid Gel, que nome esquisito. (DETALHE IMPORTANTE, A MÉDICA PASSOU O TRATAMENTO ERRADO! NUNCA FAÇA MASSAGENS NO LOCAL DA DOR!)
A médica disse que o anticoncepcional que eu tomo, Gestinol 28, foi o responsável pela trombose. Só não entendi porque ela me disse pra continuar tomando se ele é o vilão da história. =T (A MÉDICA, COM O TRATAMENTO ERRADO, QUASE ME MATOU, EM CASO DE TVP, PARE IMEDIATAMENTE DE TOMAR O ANTICONCEPCIONAL, ELE AUMENTA O RISCO DE EMBOLIA PULMONAR)
A dor, é claro, continua...
28 de fevereiro de 2012
Dormir não foi fácil por causa da dor, mas estou confiante que logo vai passar. Só consegui marcar o exame, o tal doppler colorido, pro dia 05 de março e o angiologista pro dia 09 de março. 
Enquanto isso, vou tomando a medicação e ficando quietinha em casa.
Aproveitei pra dar uma olhada na internet e ter mais informações sobre a Trombose.
"trombose é o resultado da formação de coágulos, ou trombos, quando algum fator lesa a parede dos vasos sanguíneos ou faz o sangue estagnar no seu interior."
No site do Drº Drauzio Varella vi algo preocupante:
"Como sua estrutura é sólida e amolecida, um fragmento pode desprender-se e seguir o trajeto da circulação venosa que retorna aos pulmões para o sangue ser oxigenado. Nos pulmões, conforme o tamanho do trombo, pode ocorrer um entupimento – a embolia pulmonar – uma complicação grave que pode causar morte súbita"
Estou fazendo exatamente o que a médica falou, inclusive as massagens na panturrilha. Então, não corro risco, não é? (REPITO, NUNCA FAÇA MASSAGENS NO LOCAL DA TROMBOSE, A MÉDICA QUASE ME MATOU)
03 de março de 2012
Lembra da minha dor? Então, ela diminuiu muito, quase não sinto dor hoje. Que bom! Pensei que duraria mais tempo. Só estou com dor nas costas por dormir meio torta com a perna pra cima, mas isso não é nada, não é mesmo.
O estranho é que senti uma aceleração dos batimentos cardíacos, agora à noite. Acho que foi só um susto. =)

04 de março de 2012 - O dia em que eu morri
Por volta de 1h da madrugada tentei me levantar do sofá e ir pro quarto, tive outra taquicardia e vi tudo rodando, caí no sofá mesmo. 
Creio que não fiquei muito tempo desacordada e assim que voltei do desmaio, chamei minha mãe. 
Percebi que meu coração estava bem acelerado, mas consegui chegar no quarto. Quando lá cheguei, desmaiei de novo. Isso foi péssimo, pois cada vez que desmaiava, meus batimentos cardíacos pareciam aumentar.
Minha irmã ligou pro meu pai e quando ele chegou eu já estava muito mal e com dificuldade de respirar. Achei que estava enfartando, achei mesmo.
Não conseguimos uma ambulância, por incrível que pareça, não havia uma ambulância disponível!
A ambulância era necessária porque toda vez que tentava levantar me sentia muito mal e acabei desmaiando uma terceira vez
Por volta de 4h da madrugada, minha mãe lembrou-se de um vizinho que é bombeiro e foi atrás dele pra ter pelo menos ideia do que fazer.
Ele se lembrou que o condomínio em que moro tem uma cadeira de rodas e foi buscá-la pra mim. Só assim consegui sair de casa e chegar ao carro pra ir pro hospital.
Ao chegar no Hospital Fuad Chidid, no Engenho de Dentro, entre 4h30min e 5h, não sei ao certo, fizeram um eletro e recolheram sangue pra exame. 
O problema foram as duas médicas inoperantes que estavam de plantão. Nenhuma das duas sequer me deu atenção. A emergência estava tranquila e elas ficavam passeando pelo hospital enquanto eu estava sem conseguir respirar.
Minha mãe chegou a ir atrás de uma delas que teve o disparate de dizer que eu tinha "apenas um mal estar" e que logo estaria em casa.
TVP trombose venosa profunda
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Fiquei até às 8h e alguma coisa sem medicação.
Com a troca de plantão, a nova médica literalmente correu ao meu encontro e uma técnica em enfermagem veio com ela com 6 comprimidos. 
Nesse momento percebi que alguma coisa, realmente, não ia bem.
A médica me explicou que havia uma enzima coronária que estava com o índice muito alto e por isso ela me deu AAS e Plavix. 
Além disso me transferiu pra Unidade Intensiva da emergência pra que fosse monitorada o tempo todo.
Foi aí que os eletrodos, seguidos dos "bip bips", o esfigmomanômetro (aparelho de pressão) e o oxímetro se tornaram meus companheiros.
À tarde, outro médico veio conversar comigo, com novos exames em mãos, e me disse que estavam trabalhando com a hipótese de Trombo Embolia Pulmonar.
Naquele momento lembrei logo do site do Drº. Drauzio Varella. Seria mesmo possível? 
Fiquei estável durante o dia com o aparelho de pressão me apertando a cada 1h e meia, aguardando vaga no CTI.
Quando o médico disse que eu devia ir para o CTI fiquei muito preocupada e quis bater o desespero, mas naquele momento me lembrei de uma música:
"Eu sei que estás comigo, Senhor, ainda que meus sentimentos não te alcancem. Eu sei que estás comigo, Senhor, ainda que meus pensamentos gritem: não! (...)"
O que eu podia fazer, senão aguardar e orar por todo o tempo?
À noite fui apresentada ao Clexane, uma injeção de anticoagulante que arde e deixa uma mancha roxa na barriga.
Ainda à noite, fui fazer uma Tomografia Computadorizada. Um exame simples que eu nunca imaginei que me lembraria bem dele.
Na ida, meu pai reclamou do fato de terem trazido uma cadeira de rodas e não uma maca pra me levar, pois toda vez que levantava, desmaiava.
Ok. Fui assim mesmo. 
O exame transcorreu bem.
O problema foi a volta. Assim que saí do local do exame, me senti mal, de novo e falei com o meu pai que não estava me sentindo bem.
É tudo que lembro.
Antes de abrir os os olhos na Emergência, vi alguma coisa, mas foi tão rápido que não sei exatamente o que era. Acho que foi outro desmaio, mas o que me chamou a atenção foi o fato de minhas pernas estarem muito esticadas e meu pé também.
Não conseguia entender como pude fazer aquilo sem encostar os pés no chão.
Além disso, não ouvia nada, mas sabia que havia alguma agitação perto de mim.
Minhas pernas continuavam me intrigando. Por que não as conseguia mover? Senti vontade, então, de levantar. Nessa hora comecei a ouvir a voz do meu pai.
Apesar de todas as pessoas falarem ao mesmo tempo, eu só ouvia a voz do meu pai.
Essa voz foi aumentando e quando passei a ouvi-lo plenamente, eu estava olhando pro teto e estava meio torta na cadeira
Meu pai parecia muito nervoso, ainda mais quando eu disse a ele que as laterais da minha língua estavam doendo muito
Acho que mordi a língua antes de desmaiar. (Eu ainda não sabia que tinha morrido, mais informações abaixo, continue lendo)
Me colocaram no oxigênio antes de me levarem pra cama.
Quando me puseram na cama, passei mal de novo.
Foram três quedas de pressão arterial seguidas. Foi horrível. Eu sentia como se a minha alma estivesse deixando o meu corpo.
Meu coração, já acelerado por causa da embolia pulmonar, conseguiu pulsar ainda mais rápido.
Eu não conseguia respirar, meu corpo não parava de tremer e transpirar.
A única coisa que eu conseguia fazer era clamar pelo nome de Jesus, não tinha força pra mais nada. Eu pensava: "Jesus, Jesus, Jesus, Jesus"
Após a terceira queda de pressão arterial, acho que meu corpo não aguentaria mais uma, pois entre um apagão e outro, eu ouvia os gritos da equipe médica e lembro de ter ouvido o seguinte diálogo:
- "quanto?
- não sei, não consigo ver.
- preciso saber a pressão dela!
- acho que 6.
- a máxima ou a mínima?
- acho que é a máxima!"
Depois disso, eu apaguei de novo. Quando eu acordei, não conseguia me mexer, estava exausta. Pedi pra que chamassem alguém pra ficar comigo. Achei que fosse morrer e não queria morrer sozinha.
Nesse momento, apareceu uma médica que conseguiu estabilizar a pressão e depois disso pude dormir.
Na verdade, o cansaço que sentia me obrigou a dormir, porque eu estava com medo de mais uma queda de pressão arterial e fiquei lutando contra o sono, no entanto, fui vencida por ele.
(mais informações sobre a morte nos dias seguintes, quando me contaram o que realmente aconteceu comigo...)
05 de março de 2012
Segunda-feira. Parece que já estou no hospital há uma eternidade...
Meus pais e meu irmão não conseguiram mesmo uma vaga no CTI nos hospitais do Rio de Janeiro.
Não entendo como não pode haver uma vaga disponível!
Me senti tão fraca durante toda a manhã e início da tarde.
Minha vaga no CTI só surgiu às 16h.
Da mesma forma que me colocaram no leito do CTI, eu fiquei. Não conseguia me mover.
À noite o técnico em enfermagem que cuidou de mim me acordou, sem a intenção, é óbvio, com a seguinte canção:
"Remove a minha pedra, me chama pelo nome. Muda a minha história, ressuscita os meus sonhos. Transforma minha vida, me faz um milagre. Me toca nessa hora, me chama para fora. Ressuscita-me."

Foi um bálsamo pra mim ouvir esse trecho.
Meu coração ainda estava disparado, não conseguia respirar direito e sentia um cansaço imenso. 
06 de março de 2012
Acordei ainda cansada, confesso. 

O médico do plantão diurno disse que ia me dar alta hoje. 
Não entendi nada. Esperei 12 horas pra conseguir uma vaga no CTI e com menos de 24h o médico já queria me dar alta.
Quando minha mãe soube disso, correu pro hospital com minha irmã pra impedir esse disparate.
Com a ajuda de uma enfermeira, que entendeu quando minha mãe explicou a gravidade do que me havia acontecido, a alta foi suspensa.
Antes de me colocar na maca, a enfermeira resolveu que eu devia me sentar na cama, como minha mãe sugeriu. Na mesma hora minha pressão deu um salto de 13 por 9 para 18 por 10. Além disso, meus batimentos cardíacos dispararam.
Algumas horas depois me senti tão triste com tudo que me estava acontecendo. Foi a primeira vez que chorei. Não conseguia parar de chorar.
Foi quando me veio a mente a seguinte canção:
"When the oceans rise and thunders roar. I will soar with you above the storm. Father, You are king over the flood. I will be still and know You are God..."

Ao cantá-la repetidas vezes me senti consolada e até mesmo alegre. Pude perceber, então, que ao meu lado existiam pessoas em estado muito pior e que Deus esteve comigo desde o início e continuaria ao meu lado em todo tempo.
07 de março de 2012
No box 2 havia um rapaz de 23 anos que estava no CTI há 2 meses e ninguém descobria o que ele tinha. Os exames mostravam que a saúde estava ótima, mas ele não se movia e parecia não ter consciência do acontecia ao seu redor.
Na manhã de hoje ele morreu. Quando acordei ele já não estava mais lá. Deixou uma filha de 3 anos.
Essa não foi a única surpresa do dia. Minha irmã, durante o horário de visitas, me contou o que realmente aconteceu no domingo à noite. Ela foi bem clara quando disse: "Você morreu!"
Quando o horário da visitação acabou, pus-me a relembrar daquela noite e do que havia visto antes de abrir os olhos na emergência. Foi quando me lembrei da imagem. Era um pódio com três lugares, mas vazio. Atrás desse pódio haviam dois homens com calças e camisas brancas, não vi o rosto deles, mas sabia que eram dois homens. 
Após me lembrar da imagem me veio à mente a seguinte frase: "Ao que vencer, darei a coroa da vida".
Chorei novamente, mas agora uma profunda alegria me invadiu e percebi que sou sim uma vencedora. =)
08 de março de 2012
Fiz um Ecocardiograma hoje e o médico disse que meu ventrículo direito ficou prejudicado em razão do esforço que fez para bombear sangue para o pulmão.
Ele disse que é recuperável, mas preciso não fazer esforço e tomar a medicação que o cardiologista recomendar.
Ele disse que demora, mas que com o tempo o coração vai se recuperar. 
Mais cedo tive uma experiência única e bem ruim. Estava eu no meu leito acordada quando passou o maqueiro com o corpo de alguém. Tudo bem que estava envolvido num lençol, mas mesmo assim, não era uma pessoa viva. Muito ruim mesmo ver isso.
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10 de março de 2012
Hoje foi muito difícil manter um acesso para o soro e os remédios. No fim da noite, os enfermeiros desistiram.
Por causa do anticoagulante nada fica nas minhas veias. Estou toda roxa, pois as veias estouram com muita facilidade.
Pra melhorar o dia, outro corpo foi passado na minha frente. Dessa vez tive que reclamar. Eles tem que avisar quando isso for acontecer. É muito traumático ver isso, pelo menos pra mim.
11 de março de 2012
Hoje pela manhã ocorreu algo que me marcou. Por volta das 8h, quando vinha chegando uma paciente pro box 4, ao lado do meu, me deu um sono irresistível. Pus o livro de lado e simplesmente desmaiei. Dormi até às 12h, mesmo com a aferição da pressão a cada meia hora.
Quando acordei, a enfermeira veio me perguntar como eu consegui dormir com tanto barulho. Foi quando ela me explicou que a pessoa que chegou, vinda de uma cirurgia, só piorou e até às 11h30min eles fizeram de tudo pra salvá-la, mas não foi possível.
Mais uma vez vi a mão de Deus sobre a minha vida. Ele cuidou de todos os detalhes, pois sabia que eu ficaria muito mal se estivesse acordada e presenciado o que aconteceu.
Na madrugada desse mesmo dia aconteceu algo semelhante. Ouvi quando a médica de plantão chamou o enfermeiro para entubar uma paciente que estava muito mal. Depois disso dormi e só acordei com o barulho do corpo batendo na maca.
Como já havia reclamado antes, a técnica que estava comigo me avisou e pediu pra que eu fechasse os olhos. Obedeci, claro.
Quando eu estava na emergência presenciei a morte de um senhor. Ele também estava na Unidade Intensiva, mas havia uma parede que nos separava.
Mesmo assim, vi quando correram com o desfibrilador e ouvi o barulho desse aparelho. Os filmes não conseguem retratar com exatidão o barulho e a aflição do momento. 
São dois barulhões, um do desfibrilador no corpo da pessoa e outro do corpo caindo na cama. Que agonia. 
Foi quando pedi a Deus, lá no dia 04 de março, pra que eu nunca mais presenciasse isso. É muito triste. Ele me ouviu e me preservou desses traumas. Mais uma coisa para agradecer a Ele!
Mais tarde me mudaram de lugar, saí do box 3 para o box 22. Isso significa que estou perto de sair do CTI. Amanhã vou fazer uma AngioTC, tomografia com contraste. 
Os médicos disseram que minha alta do CTI só depende do resultado desse exame. Estou confiante. 
12 de março de 2012
Não foi possível fazer o exame hoje de manhã, pois ninguém conseguiu colocar um acesso em mim. Tentaram até a jugular externa, mas não deu.
Somente no final do dia um dos técnicos em enfermagem conseguiu colocar um acesso na minha mão esquerda, mas não sei se será o suficiente, pois são muitos mililitros de contraste.
13 de março de 2012
Como eu temia, o acesso posto ontem não era bom o suficiente pro exame.
Mais picadas e furos, dessa vez na jugular externa direita e esquerda, como dói!
É claro muitos furos nas mãos, aqui também dói muito.
Enfim, na mão direita, uma veia resolveu corresponder às expectativas para o exame.
Até minha sobrinha veio me ver, aproveitando que teria de sair do CTI, já que a presença de crianças não é permitida, em razão da alta probabilidade de contaminação para uma criança.
Fiquei tão feliz quando soube da presença dela que não conseguia parar de chorar. 
Mesmo que não conseguisse fazer o exame de novo, tudo bem, pelo menos eu tinha visto minha sobrinha.
Ninguém me avisou que o exame doía. Por conta disso tive de fazê-lo duas vezes.
Quando começou a doer, eu gritei, óbvio. Se tivessem me avisado que, em razão da bomba injetora, o contraste doeria, eu não precisaria ter passado pela mesma dor duas vezes.
Agora é só aguardar o resultado do exame, a tal AngioTomografia Computadorizada.
15 de março de 2012
Enfim, o resultado do exame saiu. A Tromboembolia Pulmonar foi confirmada e no pulmão ainda há presença de muitos trombos
Mas tenho uma novidade. Recebi alta do CTI e vim para o quarto. Aqui minha mãe, ou outra pessoa da família, ficará comigo o tempo todo.
16 de março de 2012
Depois de 12 dias sem dormir, hoje eu pude descansar de verdade.
No CTI, às 0h tinha medicação, às 4h tinha medicação, às 4h30min exame de sangue e às 6h medicação de novo. Fora o aparelho de pressão que apertava de meia em meia hora e a luz sempre acessa. =p
Acordei com essa música na cabeça:
"Por tudo o que tens feito. Por tudo o que vais fazer. Por tuas promessas e tudo que és, eu quero te agradecer com todo meu ser..."

18 de março de 2012
Aproveitando a visita das pessoas, pai, mãe, irmão, Neusa, Brendon e Fernando, que estiveram comigo enquanto eu estava na emergência, comecei a perguntar o que realmente aconteceu na noite do dia 04 de março.
Segundo os relatos que me foram passados, ao sair da sala do exame, tomografia computadorizada, eu fiquei com a cabeça caída pra frente. Nesse momento, a técnica em enfermagem que nos acompanhava perguntou se eu estava me sentindo bem, na segunda vez que ela perguntou, eu balancei a cabeça negativamente. 
Então, ela pegou a cadeira de rodas, que meu pai conduzia, e correu comigo para a emergência.
No corredor eu gritei: "pai!" e comecei a me debater violentamente na cadeira de rodas. 
Depois disso eu fiquei completamente imóvel, com as pernas esticadas, corpo rígido e esticado também, com as mãos tortas pra cima, com a cabeça caída pra trás e com os olhos abertos e brancos.
Ao ver tal cena, minha família entrou em desespero. Minha mãe caiu de joelhos implorando a Deus pela minha vida. Meu irmão e meu pai não conseguiam abrir a porta da emergência, de tão nervosos que estavam.
Quando a porta, enfim, se abriu, correram comigo para o desfibrilador. Os médicos já esperavam minha morte, pois a Embolia Pulmonar era a que eles chamam de maciça, por isso não entendiam como eu ainda estava viva. 
Meu pai me contou que, enquanto estava na UTI e os médicos corriam de um lado para o outro, eu dei um pulo na cadeira e voltei a viver.
Agora, o que eu lembro, como já escrevi anteriormente, é que antes desse "pulo na cadeira", eu me vi, mais especificamente, vi as minhas pernas sem mobilidade e sabia que estava na emergência.
Segundo o meu pai, eu não me sentei na cadeira em momento algum.
Então, o que posso afirmar é que era o meu espírito sentado na cadeira. Eu não ouvia nada até sentir vontade de levantar. Foi quando ouvi somente a voz do meu pai e ela foi aumentando até que eu voltei pro meu corpo.
Não era a minha hora, ainda. Tenho muito o que fazer, conquistar e realizar nesse mundo, mas pelo menos sei, que quando chegar a minha hora vou pro lugar dos vencedores, ao lado do Pai.
20 de março de 2012
O médico de sexta-feira não me deu a mínima.
O médico que me atendeu no final de semana disse que eu teria alta hoje, outro maluco!
O médico do dia disse que eu só posso ir pra casa quando meu INR, índice utilizado pra avaliar o quantum de coagulação do sangue, estiver entre 3 e 3,5
O normal de todo ser humano é que esteja menor que 1, pois nosso corpo foi feito com essa defesa natural pra evitar que um simples furo nos faça "vazar" até a morte.
Hoje, meu INR está em 1,19. =T
Resta-me esperar.
INR TVP trombose venosa profunda 21 de março de 2012
INR -> 1,39. Contagem regressiva.
22 de março de 2012
INR -> 1,79.
23 de março de 2012
INR -> 2,0.
24 de março de 2012
INR -> 3,61. =O
Que salto! Também, o médico me receitou dois marevans, varfarina sódica.
Vim pra casa à tarde. Que saudade! Quando cheguei, achei tudo tããão bonito. ^.^
Todas as visitas que recebi no hospital, além da minha família direta que esteve comigo sempre, Tio Masoniel, Tia Vilma, Jefferson, Neusa, Caroline, Emy, Sarinha, Débora, Sandra, Alci, Paulinha, Carolina, Tati, Brendon, Vivi, Fernando, Fernanda, Eduardo, Fernandinha, Victorinha, Marlene, Rita, Salete e Vera, foram muito importantes.
Da mesma forma que os telefonemas, Neusa, Patrícia, Tati, Ju Alves, Sara, Emy e Carol, me deixaram muito feliz.
Estava tão feliz que me empolguei. Comecei a andar pela casa como se nunca tivesse estado internada e como se não tivesse ficado acamada por 20 dias.
Resultado? Taquicardia à noite. Correria e eu de volta à emergência do hospital pra fazer um novo eletro. 
Minha irmã pra me acalmar cantou pra mim, mesmo sem saber que essa é uma das minhas músicas favoritas:
"Senhor, Tu tens sido nosso refúgio de geração em geração. Antes que os montes nascessem ou que Tu formasses a terra e o mundo. De eternidade em eternidade Tu és Deus. Tu és meu Deus..."
Os batimentos estabilizaram, não senti falta de ar nem mal estar. 
Entendi o recado. Nada de estripulias até receber alta do cardiologista e do angiologista. 

O que eu só descobri semanas mais tarde é que essa foi a primeira crise de pânico de muitas que viriam...
Embolia pulmonar 27 de março de 2012
Fui ao angiologista hoje e descobri que os prédios, as ruas e os condomínios não são projetados pensando nas pessoas com deficiência motora.
Rampas, cadê? Quando as têm, buracos por todo lado as completam. Elevador? Não cabe a cadeira de rodas. =/
Bom, quanto à consulta, o médico me explicou que nunca, repito, nunca se deve massagear a área da trombose, pois, se houver um trombo flutuante, ele pode se soltar, cair na corrente sanguínea e parar no pulmão.
Lembra dos primeiros dias que eu relatei? Pois é, a médica irresponsável, além de mandar que eu tomasse toda a cartela de anticoncepcionais, mandou fazer massagem três vezes ao dia na perna com trombose. Louca!
Quanto ao tratamento, preciso usar uma meia elástica todos os dias, só a retirando pra banho e pra dormir. O remédio que devo tomar é o Daflon 500, por 60 dias e Marevan até a alta.
Além disso, preciso comprar um travesseiro anti refluxo e tê-lo na cama, porque a cama será minha companheira!
Deitada de pernas pra cima o dia todo.
Não posso ficar sentada por muito tempo, pois preciso estimular a circulação do sangue para que o organismo reabsorva os trombos.
A notícia que eu não gostei é que preciso evitar alimentos com vitamina K, ou seja, tudo que é verde. :´(
 
Por quê? Eis a resposta:
"A vitamina K (derivado da palavra dinamarquesa Koagulation) é extremamente importante na coagulação sanguínea, pois está diretamente ligada à formação de alguns fatores de coagulação.
A Varfarina é um antagonista da vitamina K. Ela inibe a síntese desses fatores, sendo caracterizada então como um anticoagulante..."
Que beleza... só porque eu adoro tudo que é verde...
 
 
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02 de abril de 2012
 
A semana passada transcorreu bem. Hoje fui ao cardiologista. Ele pediu um novo exame pra conferir a pressão pulmonar.
 
Ele manteve a medicação: Prantoprazol, Marevan e Losartana, esse último pra pressão.
 
Acho que não comentei isso antes, mas na primeira semana de CTI minha pressão chegou a 22 por 12. Desde então, passei a tomar Losartana e Atensina. Com a alta do hospital, fiquei tomando só a Losartana.
 
Preciso controlar o INR toda semana, com exames de sangue pra ver o tempo de protombina (TAP), que precisa ficar sempre entre 3 e 3,5. Acima disso, causa hemorragia.

27 de abril de 2012

Uma reportagem sobre a Trombose Venosa e os cuidados com ela foi apresentada essa semana na TV, não lembro o dia.

As pessoas não imaginam o quanto essa doença é comum e silenciosa, quando aparece, é necessário correr para o tratamento.

Achei um site interessante que fala do perigo da síndrome pós-trombótica, nem sabia que isso existia.

Segue a descrição: "É o nome que damos a todas as alterações que acontecem a médio e longo prazo nas pernas dos pacientes que tiveram trombose venosa profunda.
Estas alterações podem acontecer nas veias profundas, quando não existe recanalização natural das veias que trombosam porque os coágulos (trombos) permanecem lá sem serem dissolvidos pelo próprio organismo ou então por causa da destruição das válvulas das veias ao longo do tempo, também porque os trombos permanecem no interior das veias sem serem retirados a tempo."

Preciso me lembrar de perguntar ao angiologista sobre isso...

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04 de março de 2013

Hoje faz um ano que a morte me deu um "olá" e se foi.

Resumo de tudo o que aconteceu nos últimos meses:

Exames de sangue concluíram que eu não tenho trombofilia.

Tive diversas crises de pânico noturno. Foram muitos meses correndo pra emergência do hospital e com medo de dormir.

Tudo em consequência de estresse pós traumático.

Cheguei a tomar calmantes, mas hoje não os tomo mais. Foi uma intensa e imensa luta contra mim mesma e contra o medo, mas eu venci mais esse desafio.

Recebi alta em dezembro de 2012, contrariando todas as expectativas, já que meu quadro era de morte.

Agora permaneço fazendo tratamento preventivo.

Depois de todos os exames os médicos não fazem ideia da causa da trombose e não conseguem entender como eu não morri depois da embolia pulmonar.

Diferente deles, pouco me importa qual foi a causa e não preciso entender nada. O que me deixa feliz é saber que eu estou viva!

Saúde restaurada, vida nova, milagre de Deus.
Em janeiro de 2013 eu fui tia novamente, uma princesa linda, um presentão depois de tudo o que eu passei.
Hoje a vida voltou ao normal e me lembro todos os dias do milagre que me ocorreu. Também, como esquecer?
Eu não tenho palavras pra agradecer, mesmo que eu desse a minha vida agora, não seria o suficiente pra demonstrar minha gratidão.
Se você conseguiu ler todo o relato até aqui, agradeço por sua paciência e que  fique registrado na sua vida que o que mais importa é aquilo que o dinheiro não pode comprar.
Sou muito grata pela minha família e pelos amigos que tenho. Pessoas que me deram muito suporte e que sempre se preocupam comigo porque me amam.
Nunca vou poder agradecê-los à altura do que eles merecem.
Meu Senhor, meu tudo, minha razão, como Te agradecer? 
Pra encerrar meu relato, fica o vídeo da música "É de coração" do Gerson Borges.
"Se as palavras não mostrarem como é grande a minha gratidão, mesmo assim, Senhor, receba o meu louvor, é de coração!"


Trechos do Salmo 116, versão da Bíblia Viva:

"A morte me olhou de frente e quase me levou no seu laço; fiquei completamente dominado pelo medo, e o desespero e a tristeza me pegaram. 
Então, gritei, pedindo ajuda ao Senhor: 'Ó Senhor, salva a minha vida!'
Vi assim como o Senhor é bondoso e como é grande a sua justiça, o nosso Deus é cheio de misericórdia por nós.
Agora minha alma pode ficar bem tranquila, porque o Senhor me deu grandes bênçãos.
Tu , Senhor, livraste da morte, a minha alma, enxugaste as minhas lágrimas de tristeza e não deixaste os meus pés tropeçarem no laço.
Por isso, eu viverei bem perto do Senhor até o fim da minha vida."